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Por que a Coreia do Norte não precisa de acordo com os EUA

No mês passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer gestos de aproximação em relação à Coreia do Norte. Além de reduzir significativamente os exercícios militares realizados em conjunto com a Coreia do Sul, ele voltou a elogiar o líder norte-coreano Kim Jong-un. Segundo Trump, Kim “sempre me tratou com grande respeito”.

A resposta da Coreia do Norte às investidas de Trump, porém, foi bem menos entusiasmada. Pyongyang lançou uma série de mísseis e chegou a desmentir publicamente a afirmação do presidente americano de que Kim havia reagido “de forma muito positiva” a uma proposta de diálogo.

Nesta semana, enquanto os EUA e a Coreia do Sul, juntamente com o Japão, davam início a um exercício militar de cinco dias, não houve qualquer menção a um recuo por parte de Washington, nem qualquer sinal de avanço diplomático com Pyongyang.

Em vez disso, Kim inaugurou na segunda-feira (07/09) um contratorpedeiro da Marinha norte-coreana e voltou a enfatizar que o país precisa estabelecer uma “capacidade de dissuasão nuclear poderosa e confiável”, além de reforçar sua “defesa marítima”. O líder norte-coreano também afirmou que o país apresentará em breve um avanço “significativo” na área naval.

Por fim, no sábado (12/09), a Coreia do Norte lançou múltiplos mísseis balísticos de curto alcance em direção ao mar do Japão – um dia depois de Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão concluírem as manobras militares.

Sem pressa para um acordo com os EUA

Diferentemente da diplomacia de cúpula que marcou o primeiro mandato de Trump, a postura pouco receptiva de Kim ocorre em um momento em que a Coreia do Norte dispõe de alternativas a um grande acordo com os Estados Unidos.

“Para Kim, os riscos são simplesmente menores do que eram em 2019. Já não existe em Pyongyang o mesmo senso de urgência para voltar à mesa de negociações com Washington”, afirma Joon Ha Park, correspondente do Korea Risk Group em Seul, à DW.

“A Coreia do Norte agora conta com uma aliança formal com Moscou e vem se aproximando cada vez mais de Pequim, enquanto suas capacidades militares cresceram significativamente. Por isso, uma redução pontual dos exercícios militares conjuntos entre Coreia do Sul e Estados Unidos não é suficiente para convencer Pyongyang”, acrescentou ele, referindo-se à cooperação militar entre Seul e Washington.

Kim vive seu momento mais forte

Park concorda que Kim está, possivelmente, na posição mais forte desde que assumiu o poder, em 2011.

Há apenas seis anos, em meio a sanções internacionais severas e à pandemia de coronavírus, um emocionado Kim subiu ao púlpito durante as comemorações do 75º aniversário do Partido dos Trabalhadores da Coreia e expressou pesar por ter falhado com o povo norte-coreano.

Hoje, porém, o cenário parece bem diferente. A economia da Coreia do Norte dá sinais de estar em uma situação mais sólida. Estimativas divulgadas no ano passado pelo banco central da Coreia do Sul mostraram que a economia norte-coreana cresceu 3,7% em 2024, o ritmo mais acelerado em oito anos.

Kim aproximou a Coreia do Norte da Rússia e da China a um nível sem precedentes em décadas para um país tradicionalmente isolado. Nesta semana, Moscou e Pequim enviaram mensagens pelos 78 anos de fundação da Coreia do Norte, destacando a importância estratégica de suas parcerias cada vez mais estreitas com Pyongyang.

A atual maré favorável de Kim começou em 2023, após uma cúpula com Vladimir Putin no extremo leste da Rússia. O encontro abriu caminho para que a Coreia do Norte fornecesse armamentos para apoiar o esforço de guerra russo na Ucrânia, enquanto Moscou respondeu com assistência econômica e militar.

Desde então, Pyongyang ampliou fortemente sua produção industrial voltada para o setor de defesa, impulsionada por novos recursos financeiros que ajudam o país a contornar as sanções internacionais.

Pequim reage à aproximação entre Rússia e Coreia do Norte

A China, tradicional aliada e principal apoiadora da Coreia do Norte, percebeu rapidamente a crescente aproximação entre Moscou e Pyongyang, mas inicialmente preferiu manter certa distância.

“A guerra na Ucrânia abriu uma tábua de salvação crucial para o regime norte-coreano, que passou a fornecer armas, munições e soldados à Rússia em troca de dinheiro, alimentos e, ao que tudo indica, tecnologia militar avançada”, diz Alexander Lipke, pesquisador do Programa Ásia do Conselho Europeu de Relações Exteriores, à DW.

“Essa aproximação cada vez maior com a Rússia também acendeu um sinal de alerta em Pequim, que busca reafirmar sua posição como principal parceiro de Pyongyang”, acrescenta.

Em 2025, o estreitamento cada vez maior dos laços entre Rússia e Coreia do Norte levou Pequim a mudar de estratégia e a procurar reafirmar seu papel de liderança entre os três países. Em setembro daquele ano, Kim foi convidado para as comemorações do “Dia da Vitória”, em Pequim, e, pela primeira vez, apareceu publicamente ao lado de Xi Jinping e Vladimir Putin.

Para um regime conhecido por seu isolamento internacional, ver Kim ombro a ombro com os líderes da Rússia e da China representou um marco importante. O mesmo ocorreu em junho de 2026, quando Xi escolheu Pyongyang como destino de sua primeira viagem oficial ao exterior naquele ano.

Desnuclearização fora de cogitação?

Chama a atenção o fato de que qualquer menção à “desnuclearização da Península Coreana” foi omitida dos comunicados divulgados após esses encontros de alto nível, embora a expressão tenha feito parte, durante anos, da linguagem diplomática padrão adotada por Pequim e Moscou.

Essa mudança de tom ocorre em um momento em que a Coreia do Norte acelera seus esforços para expandir seu programa nuclear. Em fevereiro de 2026, Kim afirmou que o status do país como potência nuclear era “irreversível” e defendeu o fortalecimento de seu arsenal atômico. Análises recentes de imagens de satélite também indicam aumento da atividade em instalações nucleares já conhecidas no país.

Pyongyang também tem insistido que os Estados Unidos reconheçam a Coreia do Norte como uma potência nuclear como condição prévia para qualquer negociação com Washington. Ao mesmo tempo, o regime tem enfatizado que eventuais futuras cúpulas não devem incluir referências à “desnuclearização”.

Estima-se que a Coreia do Norte possua atualmente cerca de 60 ogivas nucleares, o dobro das 20 a 30 ogivas que se acredita que o país tivesse durante a última rodada de diplomacia entre Trump e Kim, em 2018 e 2019.

“A Coreia do Norte já não busca negociações centradas na desnuclearização nem mesmo no tradicional controle de armamentos. Cada vez mais, o país busca ser reconhecido, de forma explícita ou implícita, como uma potência nuclear”, afirma Park, do Korea Risk Group.

Ele acrescenta que uma cúpula com Trump que não incluísse a desnuclearização na agenda oficial “poderia ser apresentada por Pyongyang, tanto para seu público interno quanto para a comunidade internacional, como uma aceitação implícita, por parte dos Estados Unidos, do status nuclear da Coreia do Norte”.

As sanções já não fazem diferença?

Desde seu primeiro teste nuclear, em 2006, a Coreia do Norte está sujeita a um rigoroso regime de sanções internacionais. Ao longo desse período, o Conselho de Segurança da ONU aprovou nove resoluções impondo restrições ao país, incluindo limites às exportações e o congelamento de ativos.

No entanto, o estreitamento recente dos laços com a Rússia levanta dúvidas sobre a eficácia dessas medidas. Para muitos analistas, Pyongyang parece hoje menos vulnerável à pressão econômica internacional do que em anos anteriores.

“A situação diplomática da Coreia do Norte melhorou significativamente, reduzindo a pressão para que o país volte à mesa de negociações e feche um acordo com os Estados Unidos”, afirma Lipke. Segundo ele, “a aplicação independente das sanções praticamente entrou em colapso”, já que Rússia e China deixaram de defender ativamente a política de não proliferação que adotavam nas décadas anteriores.

Lipke avalia que Pyongyang não depende mais de um acordo com Washington para obter o alívio das sanções em troca de passos limitados rumo à desnuclearização.

“O que está em discussão agora pode ser algo muito maior para a Coreia do Norte: suspender o avanço de seu programa nuclear em troca do reconhecimento, pelos Estados Unidos, de seu status de potência nuclear de fato”, afirmou.

Fonte: Clique aqui

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