Candidata pelo PT, Roberta Luchsinger saiu de contas zeradas para negócios milionários de lobby
A empresária Roberta Luchsinger, que em 2018 disputou uma vaga de deputada estadual em São Paulo pelo PT e não foi eleita, passou nos últimos anos de uma trajetória marcada pela aproximação com lideranças petistas para uma atuação empresarial investigada pela Polícia Federal.
A candidatura pelo partido ocorreu após a aproximação de Roberta com setores ligados ao campo político de Lula (PT), em meio às repercussões da Operação Lava Jato. Antes disso, em 2017, ela havia anunciado que pretendia doar R$ 500 mil ao então ex-presidente, que enfrentava bloqueios judiciais de bens.
A trajetória financeira da empresária também já havia sido questionada na Justiça. Em 2019, uma oficial de Justiça, acompanhada por policiais militares, foi até seu imóvel em Higienópolis, em São Paulo, para cumprir uma ordem de penhora relacionada a uma dívida com uma loja de móveis e decoração.
Segundo registros judiciais citados na época, a dívida original era de aproximadamente R$ 35 mil. Como não foram encontrados valores disponíveis em contas bancárias, 14 gravuras de Candido Portinari foram penhoradas para garantir o pagamento. A empresária havia alegado no processo que não tinha condições de quitar o débito e que sua principal fonte de renda era o então marido, o ex-delegado e ex-deputado Protógenes Queiroz.
O caso ganhou repercussão justamente porque ocorreu pouco tempo depois de Roberta anunciar publicamente a intenção de fazer uma doação expressiva a Lula. Na ocasião, a Justiça determinou que ela não poderia dispor gratuitamente de seus bens enquanto a dívida não fosse integralmente quitada.
Da política ao lobby
Depois da candidatura frustrada à Assembleia Legislativa de São Paulo, Roberta passou a atuar de maneira mais intensa no setor de consultoria e intermediação de negócios. Sua empresa de consultoria foi aberta em novembro de 2019.
Anos depois, os negócios da empresária passaram a aparecer em investigações da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas pela imprensa com base em documentos da investigação, os pagamentos identificados para empresas ligadas a Roberta ultrapassam R$ 10 milhões.
Uma das informações que mais chamou a atenção dos investigadores foi uma mensagem encontrada em seu celular. Em 2024, Roberta teria escrito a um empresário que queria alcançar R$ 100 milhões naquele ano. A mensagem foi revelada pela revista Veja e posteriormente confirmada por outros veículos.
A PF investiga se a empresária utilizava sua rede de contatos políticos e institucionais para intermediar interesses privados junto ao governo federal. Entre os órgãos mencionados na apuração estão ministérios, Dataprev, INSS e Correios.
Segundo a CNN Brasil, mensagens encontradas no celular de Roberta mostram tratativas relacionadas a possíveis negócios que poderiam alcançar centenas de milhões de reais. A investigação, porém, ainda busca determinar se houve efetivamente contrapartida ou contratos públicos concretizados a partir dessas articulações.
Relação com Lulinha entra no radar da PF
Roberta também é investigada por sua relação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Os dois são apontados como amigos, e a empresária afirmou recentemente que a amizade é anterior ao período em que Lula ocupou novamente a Presidência da República. Ela nega ter utilizado essa relação para obter vantagens junto ao governo.
A Polícia Federal apura possíveis conexões entre Roberta, Lulinha e o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, investigado no esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios previdenciários.
De acordo com documentos analisados pela PF, empresas ligadas a Roberta receberam R$ 1,5 milhão em repasses atribuídos ao grupo de Antunes. A investigação tenta esclarecer a finalidade dos pagamentos e se havia relação com Lulinha.
As investigações também identificaram mensagens nas quais Roberta aparece tratando de negócios envolvendo órgãos públicos e pessoas próximas ao núcleo político do governo. A PF apura se os contatos foram utilizados para facilitar contratos ou abrir portas para empresas privadas.
Investigações chegam ao STF
O caso envolvendo Roberta Luchsinger e Lulinha chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde tramitam inquéritos relacionados às suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
Entre as frentes analisadas estão possíveis crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e conexões com o esquema investigado no INSS. Até o momento, as suspeitas estão sob investigação e não representam condenação.
A defesa de Roberta contesta as acusações e já criticou o vazamento de informações sigilosas. A empresária também nega ter cometido irregularidades e afirma que sua atuação empresarial não envolveu pagamento de vantagens indevidas.
O histórico da empresária, que inclui a candidatura a deputada estadual pelo PT em 2018, a antiga disputa judicial por uma dívida e a posterior ascensão no mercado de consultoria e lobby, passou a ganhar novo destaque diante das investigações que hoje analisam seus contatos políticos e movimentações financeiras.
A PF ainda tenta esclarecer se as relações mantidas por Roberta resultaram em benefícios indevidos, contratos públicos ou outras vantagens para empresas e pessoas envolvidas no caso, como o filho do presidente.
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