Hugo Motta fecha primeiro ano no comando da Câmara com pulso firme, mesmo sob pressão de todos os lados
Hugo Motta (Republicanos-PB) encerra seu primeiro ano à frente da Câmara dos Deputados como um personagem central do cenário político nacional. Eleito em fevereiro de 2025, aos 35 anos, tornou-se o presidente mais jovem da Casa desde a redemocratização, superando o recorde histórico do baiano Luís Eduardo Magalhães, que assumiu aos 39. A pouca idade, no entanto, não impediu que Motta exercesse o cargo com personalidade própria, mesmo sob fogo cruzado da oposição, do governo e de outros Poderes.
Médico de formação, Motta carrega uma trajetória precoce na política. Em 2010, aos 21 anos, já havia entrado para a história como o deputado federal mais jovem eleito no país. Quinze anos depois, assumiu o posto mais alto da Câmara em um momento de extrema turbulência institucional, marcado por radicalização, disputas eleitorais antecipadas e uma crise generalizada de imagem do Congresso.
Gestão sob tensão constante
O ano legislativo foi atravessado por episódios inéditos e de alto desgaste. A Câmara viveu um motim bolsonarista que se estendeu por mais de 30 horas, além da retirada à força do deputado suspenso Glauber Braga (PSOL-RJ), episódio que expôs a Polícia Legislativa e gerou acusações de censura e agressões contra jornalistas. Mesmo criticado por diferentes espectros políticos e acusado de não controlar plenamente o plenário, Motta manteve-se no centro das decisões.
Apesar do ambiente hostil, seu nome segue tratado como natural para uma eventual recondução em 2027, desde que consiga se reeleger deputado em 2026. O respaldo vem sobretudo do maior bloco da Câmara, formado por partidos do centrão, que reúne 276 parlamentares, deixando de fora as duas maiores bancadas, o PL e a federação do PT.
Atritos com governo, oposição e STF
Espremido entre as demandas conflitantes do governo Lula (PT) e da oposição bolsonarista, Motta adotou uma estratégia de alternar acenos, sempre sustentando o discurso da moderação. O resultado, porém, foi uma insatisfação crescente dos dois lados. A direita pressionou diante do julgamento e da prisão de Jair Bolsonaro (PL), além das sanções impostas por Donald Trump, cobrando pautas como anistia e punição seletiva de adversários. Já a esquerda intensificou o discurso do “Congresso inimigo do povo”, mirando diretamente a presidência da Casa.
A relação com o Executivo terminou o ano relativamente estável, com um aliado de Motta assumindo o Ministério do Turismo. O cenário é oposto no trato com o Supremo Tribunal Federal. A sequência de operações policiais envolvendo parlamentares, a derrubada de decisões da Câmara e a reversão da não cassação de Carla Zambelli (PL-SP) colocaram Motta em sucessivas situações de desgaste com a Corte.
Agenda própria e impasses
Mesmo diante da instabilidade, Motta tentou imprimir uma agenda própria. Bancou a reforma administrativa, defendeu mudanças no sistema eleitoral com o voto distrital misto e chegou a anunciar o fim da cobrança da mala de mão em voos comerciais. Nenhuma dessas propostas avançou. Outras pautas, como o projeto Antifacção, a PEC da Segurança e a reforma administrativa, ficaram pendentes e devem retornar ao debate em 2026.
Ainda assim, o presidente da Câmara lista avanços, especialmente na área de segurança pública, com mais de 40 projetos aprovados, além do Plano Nacional da Educação para a próxima década. Motta também viabilizou a aprovação de matérias econômicas prioritárias para o governo, como a isenção do Imposto de Renda, a tributação de apostas e fintechs e a tarifa social de energia.
Personalidade em ano pré-eleitoral
Espremido entre interesses conflitantes, Hugo Motta encerra o ano com a marca de quem governou sob fogo cruzado, mas sem abdicar de protagonismo. Em um Congresso fragilizado institucionalmente, sua gestão foi tudo, menos invisível. A juventude, longe de significar submissão, acabou sendo acompanhada de uma postura assertiva, que o colocou no centro dos principais embates políticos do país.
Às vésperas de um ano eleitoral, Motta segue como peça-chave do tabuleiro político nacional. Com estilo próprio, discurso institucional e disposição para enfrentar crises, o mais jovem presidente da Câmara deixa claro que idade não foi obstáculo para exercer o poder, mas parte do desafio que moldou sua gestão.
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