Motta intensifica gestos à direita, irrita governo e tenta evitar ruptura total com Lula
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), voltou a tensionar de forma intensa sua relação com o Palácio do Planalto ao conduzir a votação do projeto que reduz penas para envolvidos na trama golpista e ao avançar com o processo de cassação de Glauber Braga (PSOL-RJ). Os movimentos, vistos como aceno direto ao bolsonarismo, ampliaram o desgaste com a esquerda e reforçaram um diagnóstico incômodo dentro do governo: nos momentos decisivos, Motta tem atendido mais aos interesses da oposição.
Eleito com apoio transversal de partidos da base e da direita, Motta tenta manter uma imagem de equilíbrio. Mas a lista de decisões que favoreceram o bloco bolsonarista se acumulou nos últimos meses. Aliados do governo citam como exemplos a derrubada do decreto presidencial sobre o IOF, o avanço da PEC da Blindagem, a urgência para o projeto da anistia, o apoio à proposta de redução de penas e a escolha do bolsonarista Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar o projeto Antifacção.
A crise se aprofundou nesta semana com o episódio envolvendo Glauber Braga. Motta tentou levar adiante a cassação do mandato, mas recuou diante do risco de derrota no plenário. A saída encontrada foi uma punição alternativa, com suspensão do psolista por seis meses. O recuo, porém, veio acompanhado de nova turbulência política.
O comportamento do presidente da Câmara gerou críticas públicas de integrantes da base governista e queixas internas do próprio presidente Lula. A avaliação no Planalto é que Motta se apoia no respaldo do bloco de 275 deputados que hoje o sustenta, o que lhe permitiria adotar uma postura de autonomia em relação à esquerda e à direita.
Mas o cálculo político de Motta vai além de Brasília. Em 2026, ele trabalha para que Lula apoie seu pai, Nabor Wanderley, prefeito de Patos, na disputa pelo Senado na Paraíba. O estado foi amplamente favorável ao petismo em 2022, cenário que torna crucial para Motta evitar um rompimento total com o governo.
Na terça-feira, numa tentativa de “agradar aos dois lados”, o presidente da Câmara anunciou que colocaria em votação a proposta de redução de penas dos envolvidos no 8 de janeiro, contrariando o Planalto, ao mesmo tempo em que daria andamento à cassação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Carla Zambelli (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ), além da própria análise do caso de Glauber.
Ele também prometeu avançar com projetos de interesse do Executivo, especialmente da pauta econômica, como o que pune devedores contumazes e o que reduz benefícios tributários em 10%. A aprovação dessas medidas foi comemorada pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda), que as considera essenciais para o ajuste fiscal.
Mesmo assim, o clima azedou de vez após a confusão envolvendo Glauber Braga. Em protesto, o psolista ocupou a cadeira da presidência e se recusou a sair. A cena terminou com intervenção da polícia legislativa, retirada de jornalistas do plenário e interrupção da transmissão da TV Câmara, um gesto duramente criticado pela esquerda. Sob pressão do governo, Motta seguiu com a sessão e colocou em votação o projeto da dosimetria.
A reação dos parlamentares da esquerda foi imediata. Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que Motta estava “perdendo as condições” de comandar a Casa. Nos bastidores, governistas falam em “caminho sem volta” e acusam o presidente da Câmara de fragilidade política e submissão a pressões externas, especialmente do bolsonarismo.
Em meio ao desgaste crescente, Motta tenta convencer aliados de que continua comprometido com o equilíbrio institucional. Mas, enquanto acumula gestos à direita e mantém os canais com o Executivo apenas parcialmente abertos, cresce a percepção de que sua presidência entrou numa zona de instabilidade que pode redefinir o rumo das votações no Congresso e as alianças para 2026.
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