‘Estava prestes a acontecer’: os bastidores da ação que impediu ataque na Paulista
Grupos como esse são formados por meninos e homens ressentidos, explica pesquisadora
Já havia cerca de quatro dias que os policiais do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo monitoravam trocas de mensagens no Telegram sobre um possível ataque na avenida Paulista, até que o planejamento pareceu mais contundente: “Amanhã é a guerra. Estejam todos preparados!!”.
Tutorais mostrando como fabricar bombas caseiras ligaram alerta nos investigadores. “Ficou muito claro que estava prestes a acontecer”, disse à Jovem Pan, sob anonimato, um agente que participou da operação no último dia 2.
Dez adultos foram presos, enquanto dois adolescentes de 15 e 17 anos, de Botucatu (SP), foram apreendidos. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse apenas que não houve novidades sobre a situação dos alvos da ação e recomendou contatar a Justiça de São Paulo para mais informações.
Imagem de fabricação de bomba caseira. Crédito: Obtido pela Jovem Pan
O grupo no Telegram destinado ao estado de São Paulo contava com cerca de oito mil membros. Segundo a investigação, não havia um líder entre eles, mas três integrantes eram mais ativos.
Também havia um grupo que discutia ataques no Rio de Janeiro. Os policiais do Noad identificaram mensagens sobre um possível ataque na capital fluminense e repassaram para os colegas cariocas. A colaboração culminou em uma operação que impediu um atentado em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
A reportagem tenta contato com representantes do Telegram. O espaço está aberto para manifestação.
Nem esquerda, nem direita
Os integrantes do grupo não se identificavam politicamente nem com a esquerda, nem com a direita. “Falavam de não ser manipulados por governos”, afirmou a fonte à reportagem.
Uma das mensagens obtidas pela Jovem Pan mostram um usuário defendendo um ato violento. “Rapaziada, só instalar o caos. Vocês sabem bem o que acontece se for pacífico, né? Vão prender todo mundo e não vai dar em porra nenhuma. Se decidam: vai ser pacífico ou agressivo?”, diz o texto.
Mensagem obtida pela JP mostra discussão sobre ataque. Crédito: Obtido pela Jovem Pan
Em outra mensagem, um dos integrantes do grupo se identifica como ex-militar. “Vou montar uma lista de coisas e como fazer em conflitos de manifestação. Já fui a manifestações e sou ex-militar”, publicou.
Grupos como esse são formados por meninos e homens ressentidos, explica pesquisadora. “Então, essa pessoa vai, por meio de atentados, meio que fazer justiça por algo que ele acredita que um grupo fez contra ele. Essas pessoas buscam uma justificativa em algum lugar”, afirmou à Jovem Pan Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia.
Camilo, que acompanhou grupos no Telegram entre 2021 e 2023 como parte do doutorado em sociologia na PUC-MG, diz que os jovens são radicalizados em plataformas como Telegram e Discord. “É fundamental pensarmos numa política pública de acompanhamento desses jovens, numa ‘desradicalização’. Não basta puni-lo com a segurança pública, é uma questão de saúde pública”, disse a professora.
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