Queda da renda fixa corporativa acende sinal amarelo para crédito no Brasil
Após um ano de forte expansão do crédito via mercado de capitais em 2025, o cenário mudou de forma significativa no primeiro trimestre de 2026. A desaceleração nas emissões de debêntures e instrumentos de renda fixa passou a preocupar economistas, analistas financeiros e instituições bancárias, em meio ao aumento da inadimplência e à maior cautela na concessão de crédito no país.
Dados analisados pelo banco Banco Daycoval apontam que as emissões reais no mercado de capitais recuaram 13,5% em fevereiro e 12% em março, considerando a média móvel trimestral.
Segundo o economista Antonio Ricciardi, do Daycoval, o mercado de capitais costuma antecipar movimentos do crédito bancário tradicional. A avaliação é de que a perda de tração nas emissões pode sinalizar uma desaceleração mais ampla no acesso ao crédito na economia brasileira.
O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, afirmou que investidores e bancos passaram a atuar de forma mais cautelosa a partir de março, restringindo operações tanto no sistema bancário quanto no mercado de capitais.
“Quando você fica mais cauteloso, acaba concedendo menos crédito, independentemente do preço”, afirmou Padovani.
O aumento dos spreads, diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada nas operações financeiras, também passou a refletir maior percepção de risco no mercado.
Dados do Banco Central do Brasil mostram que o crédito ampliado ao setor não financeiro caiu 0,3% em março na comparação com fevereiro, atingindo 162,3% do Produto Interno Bruto, PIB. O recuo foi influenciado principalmente pelos resgates de títulos da dívida pública.
A agência de classificação de risco Moody’s Ratings projeta desaceleração no crescimento da carteira de crédito dos bancos brasileiros, passando de 10% em 2025 para 8% em 2026.
De acordo com Lucas Viegas, vice-presidente e analista sênior da Moody’s, fatores como inadimplência elevada, juros altos, tensão geopolítica internacional e volatilidade eleitoral contribuíram para um ambiente mais restritivo no crédito.
O também analista da Moody’s Alexandre Albuquerque afirmou que os bancos vêm adotando postura mais conservadora há cerca de dois anos, especialmente em operações consideradas de maior risco.
Segundo ele, as instituições financeiras passaram a priorizar clientes com relacionamento mais longo e histórico de maior resiliência financeira, enquanto consumidores de renda mais baixa enfrentam maior dificuldade para obter novos empréstimos.
A manutenção da taxa Selic em patamar elevado também aparece como um dos principais fatores de pressão sobre o mercado. Para especialistas, o atual cenário reduz o apetite por crédito, enfraquece a atividade econômica e amplia o risco de inadimplência.
Além disso, o contexto internacional, marcado pelas tensões envolvendo a guerra no Irã, aumentou a cautela dos investidores e elevou o custo das operações financeiras.
Mesmo diante do recuo no mercado de capitais, analistas avaliam que os bancos ainda podem ocupar parte do espaço deixado pelas emissões privadas, embora com juros mais altos e exigências maiores para concessão de crédito.
O mercado financeiro acompanha com atenção os próximos movimentos da política monetária e os efeitos da desaceleração econômica sobre empresas e consumidores ao longo de 2026.
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