Lula tenta reagir na segurança pública, mas especialistas veem pouco impacto eleitoral imediato
A segurança pública, apontada como a área de maior preocupação do eleitorado brasileiro, virou prioridade estratégica do governo do presidente Lula da Silva (PT) na reta que antecede as eleições. Em meio ao aumento da sensação de insegurança no país, o Palácio do Planalto tenta reforçar o discurso de enfrentamento ao crime organizado com o lançamento do programa “Brasil Contra o Crime Organizado”.
A iniciativa prevê investimentos de R$ 11 bilhões em tecnologia, inteligência e equipamentos para forças de segurança pública em todo o país, com foco especial em regiões de fronteira e áreas consideradas estratégicas para atuação de facções criminosas.
Nesta segunda-feira, o governo promoveu um novo evento em Manaus para detalhar as ações do programa voltadas à Amazônia Legal. O ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, participou de reuniões com secretários estaduais e lideranças locais para discutir estratégias de combate ao avanço do crime organizado na região.
Segundo o ministro, o governo busca mapear áreas mais vulneráveis e acelerar a implantação das ações previstas no plano federal.
“Temos o financiamento, um modelo consistente e a legislação necessária para implementar o plano. Temos certeza que o programa vai render frutos para a sociedade brasileira”, afirmou.
A ofensiva do governo ocorre em meio ao aumento da preocupação popular com violência e criminalidade. Pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base em levantamento do Datafolha, mostrou que 96% dos brasileiros afirmam ter medo da violência. O estudo também aponta que 40% da população foi vítima, direta ou indiretamente, de algum tipo de crime nos últimos 12 meses.
O relatório ainda conclui que a percepção de insegurança pode influenciar diretamente o comportamento eleitoral em 2026, independentemente de indicadores técnicos ou estatísticas oficiais.
Apesar da aposta política do governo, especialistas demonstram ceticismo sobre a capacidade do programa gerar retorno eleitoral no curto prazo. Para o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie, os efeitos concretos de políticas de segurança costumam levar tempo para aparecer.
“A implantação do programa leva tempo e ainda mais tempo para que as pessoas sintam o resultado, especialmente num tema complexo”, avaliou.
Segundo ele, a principal utilidade política da medida neste momento pode ser demonstrar iniciativa diante das críticas da oposição.
“Mesmo sem resultados imediatos, o governo poderá argumentar que está agindo para enfrentar o problema”, acrescentou.
O professor da Fundação Getulio Vargas e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, também avalia que o timing do programa levanta dúvidas sobre sua efetividade prática antes da eleição.
“A impressão é que esse plano foi feito para o governo ter uma resposta política durante a campanha eleitoral. A viabilidade de aplicação ampla em tão pouco tempo é baixa”, afirmou.
Nos bastidores, aliados do governo reconhecem que a segurança pública se tornou um dos temas mais sensíveis para o Palácio do Planalto. O avanço do crime organizado, os episódios de violência urbana e a pressão sobre regiões de fronteira ampliaram o desgaste da gestão federal em setores do eleitorado considerados decisivos para 2026.
Diante desse cenário, o governo aposta que a agenda de combate ao crime organizado poderá ao menos reduzir o desgaste político e impedir que a oposição monopolize o debate sobre segurança pública durante a campanha presidencial.
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