Ebola avança de forma na RD Congo e já supera 2,5 mil mortes, alerta ONU
A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo, que completa cerca de 100 dias desde sua declaração, atingiu uma dimensão considerada sem precedentes no país. Segundo a Organização das Nações Unidas, mais de 2.500 pessoas morreram, sendo aproximadamente metade dos óbitos registrada apenas nos últimos 20 dias.
O alerta foi feito nesta sexta-feira (21) por Julien Harneis, coordenador sênior da ONU para o Ebola, durante uma entrevista a partir de Bunia, no leste da RD Congo. Segundo ele, a doença está se espalhando de maneira exponencial, em uma área que já supera em extensão o território da França.
Harneis afirmou que a velocidade de transmissão atualmente é superior à capacidade de resposta das autoridades e das organizações humanitárias. O surto já se tornou o maior registrado na história da RD Congo em número de casos, superando a epidemia ocorrida entre 2018 e 2020.
Conflitos dificultam combate ao vírus
A emergência ocorre em uma região marcada por décadas de conflitos armados, deslocamentos populacionais e fragilidade da infraestrutura de saúde. Apenas na província de Ituri, uma das áreas mais afetadas, mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas pelos confrontos, segundo informações apresentadas pela ONU.
As condições de trabalho das equipes de saúde também se tornaram um dos principais obstáculos. Cerca de 160 profissionais de saúde foram infectados pelo Ebola e 43 morreram, enquanto mais de 260 ataques contra trabalhadores da área foram registrados nos últimos seis meses. Ambulâncias e unidades de saúde também foram alvo de ataques.
Além da violência, estradas precárias dificultam o deslocamento das equipes até áreas remotas. A situação é agravada por problemas no sistema bancário e pela redução do financiamento internacional destinado às operações humanitárias.
Recursos podem acabar nas próximas semanas
A ONU alerta que os recursos atualmente disponíveis para enfrentar o surto podem se esgotar em poucas semanas. Para Harneis, a demora na liberação de novos recursos aumenta o risco de a epidemia se tornar ainda mais difícil e cara de controlar.
A resposta internacional envolve o governo da RD Congo, agências da ONU e organizações não governamentais. Entre as medidas estão o reforço da vigilância epidemiológica, a capacitação de profissionais e lideranças comunitárias, a ampliação dos sepultamentos seguros e o aumento da capacidade de atendimento.
A ONU também trabalha com estruturas internacionais de saúde, logística e assistência humanitária para ampliar a operação. O objetivo é levar equipes e recursos às áreas mais remotas antes que a transmissão avance ainda mais.
Surto já supera epidemia histórica
A atual epidemia é causada pela cepa Bundibugyo do vírus Ebola. Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, não há vacina ou tratamento aprovado especificamente para essa cepa, enquanto medidas de controle e estudos para ampliar a resposta seguem em andamento.
O surto anterior considerado o mais grave da história da RD Congo ocorreu entre 2018 e 2020, quando 2.299 pessoas morreram em 3.381 casos confirmados, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde baseados em informações das autoridades congolesas. A atual epidemia já ultrapassou esse número de mortes em apenas cerca de três meses.
Para as Nações Unidas, o momento exige uma ampliação imediata da resposta internacional. A avaliação é que investimentos realizados agora podem reduzir a transmissão nos próximos meses, enquanto novos atrasos podem aumentar o número de vítimas e ampliar o risco de propagação para países vizinhos.
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